Novidades no tratamento da degeneração macular seca: esperança com expectativas realistas
A degeneração macular seca tem tratamento?
Essa é uma das perguntas mais frequentes no consultório.
Durante muitos anos, pacientes com degeneração macular relacionada à idade (DMRI) seca ouviam que não existia nenhum tratamento específico capaz de modificar a doença. A principal recomendação era acompanhamento regular, controle dos fatores de risco e, em alguns casos, uso de vitaminas da fórmula AREDS.
Nos últimos anos, porém, surgiram novas abordagens que despertaram grande interesse entre pacientes e especialistas, principalmente o Valeda, além dos medicamentos Syfovre e Izervay.
Mas será que todos os pacientes podem se beneficiar dessas opções?
A resposta é não.
Cada tratamento tem indicações bastante específicas, benefícios limitados e pontos importantes que precisam ser discutidos antes de qualquer decisão.
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- O diagnóstico preciso por exames como OCT e retinografia é essencial antes de qualquer tratamento.
- Suplementos AREDS 2 continuam recomendados para retardar a progressão em casos de DMRI intermediária.
- O Valeda (fotobiomodulação) é um tratamento não invasivo promissor, mas restrito a casos específicos e em debate científico.
- Os novos anticomplementos (Syfovre e Izervay) visam desacelerar a atrofia geográfica, porém não revertem a visão perdida.
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Antes de pensar em tratamento, é fundamental confirmar o diagnóstico
Nem toda mancha na retina é degeneração macular.
Nem toda degeneração macular seca é igual.
Hoje sabemos que existem diferentes estágios da doença, desde formas iniciais até a chamada atrofia geográfica, considerada uma fase mais avançada.
Por isso, exames especializados são fundamentais para definir o estágio da doença e identificar quais pacientes podem realmente se beneficiar de alguma intervenção:
- OCT (Tomografia de Coerência Óptica): permite visualizar detalhadamente todas as camadas da retina.
- Retinografia: fotografia detalhada do fundo do olho para registro e acompanhamento.
- Autofluorescência: avalia a saúde do epitélio pigmentado da retina e áreas de atrofia.
- Angiografia: indicada em casos selecionados para avaliar a circulação retiniana.
A avaliação especializada é recomendada pelas diretrizes atuais da Academia Americana de Oftalmologia.
AREDS: as vitaminas continuam tendo papel importante?
Sim.
Apesar de toda a atenção voltada aos novos tratamentos, os suplementos da fórmula AREDS 2 continuam sendo uma das medidas com melhor relação entre evidência científica, segurança e custo-benefício para muitos pacientes.
A fórmula AREDS 2 contém:
- Vitamina C
- Vitamina E
- Zinco
- Cobre
- Luteína
- Zeaxantina
Ela não cura a doença e não melhora a visão. Mas pode reduzir o risco de progressão para formas avançadas em pacientes com DMRI intermediária, sendo recomendada nas diretrizes atuais.
Quem costuma se beneficiar do AREDS 2?
- ✅ DMRI intermediária
- ✅ Drusas numerosas ou maiores
- ✅ Alterações pigmentares associadas
Quem normalmente não precisa?
- ❌ Pacientes sem DMRI
- ❌ Casos muito iniciais
- ❌ Pessoas com apenas pequenas drusas relacionadas à idade
O que é o Valeda?
O Valeda Light Delivery System é um equipamento que utiliza luzes de comprimentos de onda específicos para realizar um tratamento chamado fotobiomodulação.
A proposta é estimular o metabolismo celular da retina e melhorar o funcionamento das mitocôndrias, que são as estruturas responsáveis pela produção de energia das células.
O tratamento é:
- Não invasivo
- Indolor
- Realizado em sessões seriadas
O Valeda funciona?
Essa é atualmente uma das áreas mais debatidas da retina.
Alguns estudos mostraram melhora em parâmetros visuais e funcionais em pacientes selecionados com DMRI seca inicial ou intermediária.
Por outro lado, diversas revisões críticas apontam limitações importantes:
- Número relativamente pequeno de pacientes estudados.
- Necessidade de confirmar se os benefícios se mantêm a longo prazo.
- Resultados nem sempre reproduzidos de forma consistente.
- Falta de evidência robusta demonstrando redução comprovada da progressão para cegueira ou atrofia geográfica.
Em outras palavras: existe potencial benefício, mas ainda há discussões relevantes sobre a magnitude real desse benefício e quais pacientes são os melhores candidatos.
Quem pode ser considerado para o Valeda?
De forma geral, os pacientes potencialmente elegíveis costumam apresentar:
- ✅ DMRI seca inicial ou intermediária
- ✅ Presença de drusas sem atrofia geográfica avançada
- ✅ Boa capacidade de comparecer às sessões programadas
- ✅ Diagnóstico confirmado por exames especializados
Quem provavelmente não se beneficia?
- ❌ Atrofia geográfica avançada
- ❌ Cicatrizes maculares extensas
- ❌ Perda visual muito avançada decorrente de dano irreversível
O Dr. Marco Bonini realiza Valeda?
O Dr. Marco Bonini realiza avaliação especializada de pacientes com degeneração macular seca.
Quando necessário, são solicitados exames para confirmar o diagnóstico, determinar o estágio da doença e avaliar se existe potencial benefício de alguma das novas terapias disponíveis.
O Valeda pode ser considerado apenas em casos muito selecionados, após análise individualizada.
Atualmente, esse equipamento não está disponível em nossa clínica. Caso exista indicação, o paciente poderá receber orientação e eventual encaminhamento para centros que realizem o tratamento.
O que são os medicamentos anticomplemento?
Outra grande novidade no tratamento da DMRI seca são os medicamentos que atuam no chamado sistema complemento. O complemento faz parte do sistema imunológico e está envolvido nos mecanismos inflamatórios associados à progressão da degeneração macular.
Os dois medicamentos mais conhecidos são:
- Syfovre (pegcetacoplan): bloqueia a proteína C3 do complemento.
- Izervay (avacincaptad pegol): bloqueia a proteína C5 do complemento.
Ambos são administrados através de injeções dentro do olho (injeções intravítreas).
Quem pode ser candidato aos anticomplementos?
Esses medicamentos não foram desenvolvidos para formas iniciais da doença. O principal grupo potencialmente beneficiado inclui pacientes com:
- ✅ Atrofia geográfica secundária à DMRI
- ✅ Lesões ainda não muito extensas
- ✅ Expectativa de preservar áreas de retina funcional por mais tempo
O objetivo não é recuperar visão perdida. O objetivo é tentar desacelerar a velocidade de crescimento da área de atrofia.
Quais são as limitações dos anticomplementos?
É importante compreender que esses medicamentos geraram entusiasmo, mas também várias discussões entre especialistas. Entre os principais pontos estão:
- Benefício relativamente modesto: os estudos mostraram desaceleração da progressão da atrofia geográfica, mas não interrupção da doença.
- Necessidade de múltiplas injeções: o tratamento costuma exigir aplicações repetidas por períodos prolongados.
- Risco aumentado de neovascularização: um dos achados observados nos estudos foi aumento da incidência de desenvolvimento da forma úmida (neovascular) da degeneração macular em parte dos pacientes tratados. Isso significa que o paciente precisa ser monitorado de forma muito próxima.
- Questões regulatórias e financeiras: atualmente esses medicamentos não possuem aprovação da ANVISA para essa indicação. Além disso, a necessidade de importação pode elevar significativamente os custos do tratamento.
Por isso, qualquer decisão deve considerar cuidadosamente o benefício esperado, estágio da doença, riscos potenciais, impacto financeiro e os objetivos do paciente.
O que os pacientes devem fazer hoje?
A melhor estratégia continua sendo individualizar o tratamento. Dependendo do estágio da doença, a recomendação pode envolver:
- Apenas acompanhamento periódico.
- Uso de AREDS 2.
- Controle rigoroso dos fatores de risco.
- Suspensão do tabagismo.
- Avaliação para fotobiomodulação.
- Discussão sobre terapias anticomplemento em casos selecionados.
Não existe um tratamento único que sirva para todos.
Mensagem final
As novidades no tratamento da degeneração macular seca representam um avanço importante e trazem esperança para muitos pacientes.
Entretanto, é fundamental separar expectativa de realidade. Nem todo paciente é candidato ao Valeda. Nem todo paciente se beneficia dos medicamentos anticomplemento. E, para muitos casos, as medidas tradicionais — especialmente acompanhamento especializado, controle dos fatores de risco e uso adequado das vitaminas AREDS 2 — continuam sendo as estratégias com melhor respaldo científico atualmente.
Se você recebeu o diagnóstico de degeneração macular seca ou foi informado sobre atrofia geográfica, uma avaliação especializada pode ajudar a definir em qual estágio a doença se encontra e quais opções realmente fazem sentido para o seu caso.